segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O nobre amador

Toda revolução é celebrada em nome de alguma abstração aparentemente nobre. E a revolução da Web 2.0 não é diferente. A nobre abstração por trás da revolução digital é a do nobre amador.
Ouvi essa expressão pela primeira vez em 2004, durante um café-da-manhã com um "Amigo de O'Reilly". Brandindo sua xícara de café, ele me disse que esses "nobres amadores" iriam democratizar o que ele chamou de "a ditadura da expertise". A Web 2.0 era a consequência mais "espantosamente" democrática da revolução digital, afirmou. Ela mudaria o mundo para sempre.
"Então em vez de uma ditadura de especialistas, vamos ter uma ditadura de idiotas", eu poderia ter respondido. Seu ideal do "nobre amador" parecia mais uma conversa fiada do Vale do Silício, apenas mais um disparate irracional exuberante.
Mas o ideal do nobre amador não tem nada de engraçado. Acredito que ele reside no cerne da revolução cultural da Web 2.0 e ameaça virar nossas tradições e instituições culturais de cabeça para baixo. Em certo sentido, é uma versão digitalizada do bom selvagem de Rousseau, representando o triunfo da inocência sobre a experiência, do romantismo sobre a sabedoria do senso comum do Iluminismo.
Que me seja permitido, portanto, começar esta viagem ao centro do mundo digital com uma definição. O sentido tradicional da palavra "amador" é muito claro. Um amador é quem cultiva um hobby, podendo ser culto ou não, alguém que não ganha a vida com seu campo de interesse, um leigo a quem faltam credenciais, um diletante. Geroge Bernard Shaw disse uma vez, " O inferno está cheio de músicos amadores", mas isso foi antes da Web 2.0. Hoje, o inferno de Shaw teria acesso de banda larga e estaria infestado de blogueiros e podcasters.

fonte: livro O culto do amador, autor Andrew Keen, editora Zahar.